domingo, 3 de abril de 2011

Agonia do amor

Silhuetas translúcidas e serenas
Meigas formas etéreas, apaixonantes
como crianças brincalhonas e inconseqüentes
assim é tua lembrança em meu peito
disformes gestos irreais e levianos
me arrasta para o imaginário mundo do amor.
Sedentos, meus lábios mendigam teu beijo
que rabisca gestos lentos e sensuais
fugindo assim, da ganância da minha fome
atroz e traiçoeira...
Leves tentações me consomem e
no febril e delicado amor semi-humano
debruço sobre ti minha alma
e bebo alucinado do teu ser
angelical e sublime...
Tosca memória me trai e corrompe
assolando meus dias e mentindo sobre mim
fatos irreais e primeiros de paixão infinita
busca constante e frenética de nós
dois seres quase humanos
que a realidade derramou no mundo
como pequenas gotas de orvalho matinal
para viver poucas horas e morrer
pouco depois de nascer o sol.



quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dezembros


Nunca mais a natureza da manhã     
E a beleza no artifício da cidade 
Num edifício sem janela   
Desenhei os olhos dela     
Entre vestígios de bala  
E a luz da televisão 
  
Os meus olhos têm a fome Do horizonte   
Sua face é um espelho Sem promessa  
Por dezembros atravesso  
Oceanos e desertos    
Vendo a morte assim tão perto  
Minha vida em suas mãos 
  
O trem se vai 
Na noite sem estrelas  
E o dia vem 
Nem eu nem trem nem ela 

                                          ( Zeca Baleiro )

Merecida homenagem a uma das mais belas poesias 
que já vi nos últimos tempos.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Folha Corrida

Não se conhece um homem pela impressão digital
Nem uma mulher pelo olhar.
Não se conhece um pássaro pelas penas
Nem uma cobra pelo rastejar.
Não se conhece um analfabeto pela leitura
E nem um doutor pelo falar.
Não se conhece um amigo pelos elogios
E nem um inimigo por te ameaçar.
Mas, conhecemos o homem pelo caráter.
A mulher pela alma
O pássaro pelo cantar
A cobra pelo veneno
O analfabeto pela humildade
O doutor pelas atitudes
O amigo pelo coração
O inimigo: esse nós não conhecemos, não!

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Com doçura e mel

Da canção que ouço
A nota mais bela é longa como os teus cabelos...
É doce como a tua voz
É leve como o pensamento
Distante como o sentimento
Presente como o momento.
É grave como o teu alento
Que entoas por meu peito adentro
Tentando ser tão eu, quanto eu sou eu.
Entrando eu meus ouvidos
Com doçura e mel
E escorrendo em meu leito
Feito o cristal das águas frias
Das nascentes quentes, discordantes...
Dessas frias águas amantes
Que nascem em meu ser ardente
E deixa-me tão louco e errante
Que com meu coração latente
Dançarei feliz e satisfeito
Como o mais perfeito orgasmo
Tirado do teu peito
E adormecido no teu ventre. 

sábado, 8 de maio de 2010

A borboleta e a Cigarra

Delicadamente abres tuas asas sobre o verde dos campos
E da cigarra escuto o cantar estridente
Enquanto voas linda, bailando nos céus,
Meus olhos te acompanham nessa dança mágica.
Leves movimentos, que até em pensamentos
Suavizam o toque dos meus dedos
Enquanto descrevo a sublime maestria
Deste vôo, livre e teu.
Misturando tua cor à natureza
Confundes mais meus olhos que minha cabeça
Exibindo teus tons no espaço
Entre as folhas molhadas da manhã
Esquivando-se dos galhos marrons
Das árvores que te esconde
E abriga quem canta tão avidamente; A cigarra: que de ti, é tão parente
Quanto a larva, que um dia, já foram as duas
E agora, uma canta e a outra voa livremente.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Um dia... amei.


Um dia, eu pensei que poderia amar... amei.
E que o amor era eterno... e é, eu sei.
Porém, meu coração bateu descompassadamente, muitas vezes
E muitas vezes eu chorei...
um choro amargo e quente, que coroe as entranhas,
Fere a alma e derrete o sentimento.
Um dia, eu até pensei que poderia te amar...
Um amor assim... sem pretensão, sem juízo.
E amei.
Mas um dia eu pensei que poderia ter você... errei!
É que doeu... uma dor diferente, mórbida e fria.
Uma dor que jamais sentira e que agora, muitas vezes sinto.
E uma chama queimou por dentro como um vulcão ardendo
Como uma voz dizendo: Não!
Quando o que eu mais queria, era tua boca dizendo: Sim!
E nossos corpos se envolvendo como águas
quente e fria que se misturam
E de repente, as duas são uma só
Morna, na metade do amor, que atrai os dois...
E vão ficar assim até esfriarem juntas ou ferverem juntas
num amor eterno... fatal...

quarta-feira, 24 de março de 2010

Madrugada

Na madrugada, ouço os sons da noite...
Neles escuto frases doces, amargas,
ásperas e delicadas.
Nas cores da madrugada
eu vejo silhuetas que parecem com as suas,
vejo olhos tristes nas ruas;
bocas frenéticas se beijando
ouço corações batendo forte,
quase explodindo.
Vejo roupas suadas e às vezes,
corpos frios...
vejo o pulsar do sexo
por debaixo da roupa.
Vejo seios empinados
blusas abertas...
vejo mãos buliçosas e carinhosas.
Vejo sorrisos e choros...
vejo pessoas que saem
e pessoas que chegam...
Na madrugada, penso em você,
em mim, em toda humanidade...
penso em você... em mim... na madrugada.